GLOSAS FESCENINAS DE MOYSÉS SESYOM
Coletânea organizada por Jardelino Lucena
jardelino@digizap.com.br
Moysés Lopes Sesyom, nasceu a 28 de julho de 1883 no sítio Baixa Verde em Caicó, no Rio Grande do Norte. Viveu em Açu-RN, a partir de 1905 vindo a falecer em 9 de março de 1932
1. Sua avó, puta de estrada.
Sua mãe é fêmea minha.
2. João de Souza é um sacana
Só faltava ser cabrão
3. Rodolfo dançando nu
Cagou em pé como boi.
4. Zé Leão quase se caga
Quarta-feira na novena.
5. A doida da gameleira
Deu um peido e se cagou
6. O peido que a doida deu
Quase não cabe no cu.
7. Pude iludir uma cega
Dei-lhe uma foda no cu.
8. O pé de rabo de Ana
Por gosto se pode olhar.
9. Se Celina me matar
Ninguém tenha dó de mim
10. Se Celina me matar
Ninguém tenha dó de mim
11. Celina cravou Macário
Deixou Bitinha na mão
12. O quartel dessa cidade
Transformou- se em hospital
13. Eu fiz um saco de meia
Pra suspender os colhões
14. O saco que eu sempre usava
Não cabe mais os colhões.
15. Bebo, fumo, jogo e danço
Sou perdido por mulher.
1. MOTE
Sua avó, puta de estrada.
Sua mãe é fêmea minha.
GLOSA
A sua raça é safada
Desde a quinta geração
Seu avô foi um cabrão
Sua avó, puta de estrada
Sua filha, amasiada
Prostituta sua netinha
Esta pariu de um criado
Seu pai foi corno chapado
Sua mãe é fêmea minha
2. MOTE
João de Souza é um sacana
Só faltava ser cabrão
GLOSA
Dança fobó, bebe cana,
Em tudo mete o bedelho,
Toca bronha e chupa grelho,
João de Souza é um sacana
Se mete na carraspana
Dentro da repartição;
É mentiroso, é ladrão,
É de uma fama corruta,
É corno, filho da puta,
Só faltava ser cabrão.
3. MOTE
Rodolfo dançando nu
Cagou em pé como boi.
GLOSA
Um caso raro em Açu,
Quereis saber o que é?
Foi visto no cabaré
Rodolfo dançando nu.
Quando ele mostrou o cu
As putas disseram: "Oi"
Um sacana que lá foi
Me disse: " pintou o sete,
Tocou bronha, fez minete,
Cagou em pé como boi".
4. MOTE
Zé Leão quase se caga
Quarta-feira na novena.
GLOSA
Quase faz do cu bisnaga
Apertado, em plena rua
Ontem, ao clarão da lua
Zé Leão quase se caga.
Porém encontrou uma vaga
Pôde fazer quarentena.
Com franqueza, tive pena
Por vê-lo tão apertado.
Foi feliz não ter cagado
Quarta-feira na novena.
5. MOTE
A doida da gameleira
Deu um peido e se cagou
GLOSA
Enrolado em uma esteira
João Dudu foi tomar fé,
Só pra ver mijando em pé,
A doida da gameleira.
Quando viu uma carteira
Teve medo recuou
Ali a doida ficou
Lhe disse: eu vou à caverna
Logo ali abriu a perna
Deu um peido e se cagou.
6. MOTE
O peido que a doida deu
Quase não cabe no cu.
GLOSA
Eu conto o que sucedeu
Na sombra da Gameleira
Foi um tiro de ronqueira
O peido que a doida deu.
Toda terra estremeceu,
Abalou todo o Açu,
Ela mexendo um angu,
Tira a perna para um lado
Dá um peido tão danado
Quase não cabe no cu.
7. MOTE
Pude iludir uma cega
Dei-lhe uma foda no cu.
GLOSA
Saindo de uma bodega
De meio lastro queimado,
Com muito jeito e agrado
Pude iludir uma cega.
Rolando na beldroega (1)
Fazendo vez de muçu (2)
Prá fornicar me pus nu.
Faz tempo, mas me recordo,
Virei a cega de bordo
Dei-lhe uma foda no cu.
(1) Erva rasteira e suculenta - da família. das portulacáceas
(2) Muçu - enguia d'água doce
8. MOTE
O pé de rabo de Ana
Por gosto se pode olhar.
GLOSA
Meti-me na carraspana,
Alexandre acompanhou
E comigo analisou
O pé de rabo de Ana.
Alguém dirá que é chincana
Porém eu posso provar,
A puta é de arrebatar,
Da Urtiga,(1) eu tiro aquela,
Pois o pé-de-rabo dela,
Por gosto se pode olhar.
(1) Urtiga - bairro boêmio do Açu
9. MOTE
Se Celina me matar
Ninguém tenha dó de mim
GLOSA
Se ela me abandonar
Desmastriando-me a sorte
Eu direi, perdôo a morte
Se Celina me matar.
Se eu pudesse gozar
Suas delícias sem fim
Seu corpo, junto de mim
Esbelto, quente, cheiroso,
Sentindo a febre do gozo
Ninguém tenha dó de mim
10. MOTE
Se Celina me matar
Ninguém tenha dó de mim
GLOSA
Não posso mais suportar
É grande a minha paixão
Perdôo de antemão
Se Celina me matar
Se eu dela me aproximar
Terei um prazer sem fim
Se um dia me vires assim
Chupando o beicinho dela
Se eu morrer fudendo nela
Ninguém tenha dó de mim
11. MOTE
Celina cravou Macário
Deixou Bitinha na mão
GLOSA
Num pequeno comentário
Se dizia, com vantagens,
Que com enorme fogagem (1)
Celina cravou Macário.
Quase mata um funcionário
De sarna, chato(2) e bulbão(3)
E mais uma purgação(4)
Que vem deitando a negrada.
Essa puta engalicada
Deixou Bitinha na mão
_______________
(1) Fogagem - Hérpes no prepúcio
(2) Chato - Piolho das virilhas ou púbis - phithirius inguinalis.
(3) Bulbão - Adenite supurada que acompanha o cancro mole, vulgarmente chamada de mula.
(9) Purgação - Blenorragia
12. MOTE
O quartel dessa cidade
Transformou- se em hospital
GLOSA
Por dever de humanidade
O Governo decretou
Em asilo transformou
O quartel dessa cidade
Causa dó e piedade
Neste momento atual
A força policial
Se acha toda doente,
Nosso quartel, finalmente,
Transformou-se em hospital;
13. MOTE
Eu fiz um saco de meia
Pra suspender os colhões
GLOSA
Senti grossa a cordovéia
Quando vi, fiquei doente.
Apressado, incontinente,
Eu fiz um saco de meia.
Depois da bruaca cheia
Suspendi por dois cordões,
Senti doer os tendões
Onde a mulher tem tabaco.
Eu não tenho, uso um saco
Pra suspender os colhões
14. MOTE
O saco que eu sempre usava
Não cabe mais os colhões.
GLOSA
Por esta eu não esperava.
De tristeza estou carpido,
Hoje vi. Está perdido.
O saco que eu sempre usava.
Foi uma sentença brava
Para tirá-la em grilhões.
Porém alego razões
Para as quais tenho de sobra:
O saco deu uma dobra
Não cabe mais os colhões.
15. MOTE
Bebo, fumo, jogo e danço
Sou perdido por mulher.
GLOSA
Vida longa não alcanço
Na orgia e no prazer,
Pois enquanto não morrer
Bebo, fumo, jogo e danço.
Brinco, farreio e não canso
Me censure quem quizer,
Não falho um dia sequer
Cumprindo esta sina venho,
Além dos vícios que tenho,
Sou perdido por mulher.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
sexta-feira, 22 de abril de 2011
A Flor de Maracujá
Encontrando-me com um sertanejo
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá
Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá
Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão
Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê
Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza
Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera
E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô
I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor
Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.
Catulo da Paixão Cearense
Perto de um pé de maracujá
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo
Porque razão nasce roxa
A flor do maracujá?
Ah, pois então eu lhi conto
A estória que ouvi contá
A razão pro que nasci roxa
A flor do maracujá
Maracujá já foi branco
Eu posso inté lhe ajurá
Mais branco qui caridadi
Mais brando do que o luá
Quando a flor brotava nele
Lá pros cunfim do sertão
Maracujá parecia
Um ninho de argodão
Mais um dia, há muito tempo
Num meis que inté num mi alembro
Si foi maio, si foi junho
Si foi janero ou dezembro
Nosso sinhô Jesus Cristo
Foi condenado a morrer
Numa cruis crucificado
Longe daqui como o quê
Pregaro cristo a martelo
E ao vê tamanha crueza
A natureza inteirinha
Pois-se a chorá di tristeza
Chorava us campu
As foia, as ribera
Sabiá também chorava
Nos gaio a laranjera
E havia junto da cruis
Um pé de maracujá
Carregadinho de flor
Aos pé de nosso sinhô
I o sangue de Jesus Cristo
Sangui pisado de dô
Nus pé du maracujá
Tingia todas as flor
Eis aqui seu moço
A estoria que eu vi contá
A razão proque nasce roxa
A flor do maracujá.
Catulo da Paixão Cearense
terça-feira, 12 de abril de 2011
Salve Oliveira de Panelas
Amor Cósmico
Oliveira De Panelas¹
E a terra era criancinha ainda
quando eu comecei te amar.
Eu venho dos anos, das era,que longe se acham daqui,
Contigo cantei a canção no espaço maior,
Em formas de luzes de um mundo melhor
Mas foi necessario parti.
Eu lembro da primeira vez que te vi,
Milênios de instantes de mim para ti,
Num só paralelo de imensidão
Estamos aqui.
Viemos de longe,do largo,do alto
Profundo
Cercado de inicios de todos os mundos
Sem poder parar.
E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei te amar.
Partimos maneiros,ligeiros
Qual luzes bricando com fogo no ar
E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei te amar
Jurei a promessa de minha missão
Que quando estivesse contigo no chão
Pagaria toda promessa que fiz.
Então desse amor que nasceu de nós dois
Que nasça outros grandes amores depois
Sementes plantadas pra um mundo feliz
No processo lindo que te conheci,
Mil razões eu tenho pra não te deixar,
Na vida eu estou, da vida eu sai
Na vida eu irei te encontrar
E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei te amar.
¹Francisco Oliveira de Melo
* Panelas, PE. – 1946
Respeitado poeta repentista, em
Oliveira De Panelas¹
E a terra era criancinha ainda
quando eu comecei te amar.
Eu venho dos anos, das era,que longe se acham daqui,
Contigo cantei a canção no espaço maior,
Em formas de luzes de um mundo melhor
Mas foi necessario parti.
Eu lembro da primeira vez que te vi,
Milênios de instantes de mim para ti,
Num só paralelo de imensidão
Estamos aqui.
Viemos de longe,do largo,do alto
Profundo
Cercado de inicios de todos os mundos
Sem poder parar.
E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei te amar.
Partimos maneiros,ligeiros
Qual luzes bricando com fogo no ar
E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei te amar
Jurei a promessa de minha missão
Que quando estivesse contigo no chão
Pagaria toda promessa que fiz.
Então desse amor que nasceu de nós dois
Que nasça outros grandes amores depois
Sementes plantadas pra um mundo feliz
No processo lindo que te conheci,
Mil razões eu tenho pra não te deixar,
Na vida eu estou, da vida eu sai
Na vida eu irei te encontrar
E a terra era criancinha ainda
Quando eu comecei te amar.
¹Francisco Oliveira de Melo
* Panelas, PE. – 1946
Respeitado poeta repentista, em
Poeta Pedro Bandeira
EU NÃO SEI NEM QUEM SOU EU:
“No dia qui eu tou cá peste
Eu não sei nem quem sou eu,
Sou um fio do Nordeste
Que por descuido nasceu.
Cabôco do pé da serra
Fio legítimo da terra
De Inácio da Catingueira,
Juvená do Picuí,
De Zé Duda do Zumbí
E Mané Gardino Bandeira.
Sou um dos fí de Jesus
Qui nasceu por um arranjo,
Na terra de Zé da Luz
E de Argusto dos Anjo.
Sou do mesmo tabuleiro
Onde Pinto do Monteiro
É o primeiro da lista,
Cantador de desafôro
Tirando lapa de couro
Do rabo de repentista.
Sou dos cabra do Teixeira
Do sertão véi sem imprêgo
Da terra de Zé Limeira,
E dotô Zé Lins do Rêgo.
De Zé Américo de Armêida
Orador da voz de seda
Político da linha boa.
Sou cantadô das coivara
Do sertão das Ispinhara
A capitá João Pessoa.
Sou um doido da viola
Repentista vagabundo
Como um jumento sem bola
Sorto no ôco do mundo.
Bibí água do riacho
Onde todo cabra macho
Se acorda de madrugada
Sou um matuto pai-dégua
Nasci na Baixa da égua
Perto da tába lascada.
Sou um cabra resorvido
Bicho sem assombração
Poeta véio nascido
No miolo do sertão.
Sou neto de João Mandióca.
Cumpadre de Cobra Choca.
Mês de maio é o mês meu.
Me batisei em oitubro
Vou ver se ainda descubro
Onde a garrota morreu.
Sou do cabo da enxada,
Neto que dá língua a vó.
Cabra da rede rasgada
E um buraco no lençó.
Sou da terra de Ugolino,
Famia de Ontôe Sirvino,
Parente de Lampião.
Colega de Zé Catôta,
Romeiro véio da gôta
Do Padre Cícero Romão.”
Poeta Pedro Bandeira
“No dia qui eu tou cá peste
Eu não sei nem quem sou eu,
Sou um fio do Nordeste
Que por descuido nasceu.
Cabôco do pé da serra
Fio legítimo da terra
De Inácio da Catingueira,
Juvená do Picuí,
De Zé Duda do Zumbí
E Mané Gardino Bandeira.
Sou um dos fí de Jesus
Qui nasceu por um arranjo,
Na terra de Zé da Luz
E de Argusto dos Anjo.
Sou do mesmo tabuleiro
Onde Pinto do Monteiro
É o primeiro da lista,
Cantador de desafôro
Tirando lapa de couro
Do rabo de repentista.
Sou dos cabra do Teixeira
Do sertão véi sem imprêgo
Da terra de Zé Limeira,
E dotô Zé Lins do Rêgo.
De Zé Américo de Armêida
Orador da voz de seda
Político da linha boa.
Sou cantadô das coivara
Do sertão das Ispinhara
A capitá João Pessoa.
Sou um doido da viola
Repentista vagabundo
Como um jumento sem bola
Sorto no ôco do mundo.
Bibí água do riacho
Onde todo cabra macho
Se acorda de madrugada
Sou um matuto pai-dégua
Nasci na Baixa da égua
Perto da tába lascada.
Sou um cabra resorvido
Bicho sem assombração
Poeta véio nascido
No miolo do sertão.
Sou neto de João Mandióca.
Cumpadre de Cobra Choca.
Mês de maio é o mês meu.
Me batisei em oitubro
Vou ver se ainda descubro
Onde a garrota morreu.
Sou do cabo da enxada,
Neto que dá língua a vó.
Cabra da rede rasgada
E um buraco no lençó.
Sou da terra de Ugolino,
Famia de Ontôe Sirvino,
Parente de Lampião.
Colega de Zé Catôta,
Romeiro véio da gôta
Do Padre Cícero Romão.”
Poeta Pedro Bandeira
quinta-feira, 31 de março de 2011
@SonyBr Veja Só 100 dias sem meu Vaio
O meu Vaio deu problema
levei para autorizada
a moça lá me falou
daqui a 9 dias
ta resolvido a parada.
passaram 100 dias
que Vaio que @Sony que nada!
Depois de 40 dias
a moça então me falou
infelizmente não tem peça
para o seu computador,
a @Sony vai te dar um novo
porque ela ama seu povo,
reconheça seu valor.
100 dias passados
nada do meu Vaio chegar
eu falei com meus botões:
começou a complicar
e
vou botar pra empenar
reuno minha turma no twitter
eles não vão me faltar.
sou um sujeito pacato
compridor do meu dever
ando sempre numa linha
é firme meu proceder
mas ser passado pra trás
isso ninguém me faz,
boto logo pra moer.
@SonyBr manda logo o que é meu
quero ficar sossegado
trabalhando em meu cantinho
muito bem despreocupado,
sei que esperar não presta
e esse custo da mulesta
ta me deixando arretado!
já apelei pra Bashô
poeta do verso reto
salve Akira e Mishima
no seu supremo dialeto,
Mas a @Sony e o seu Vaio
tá num custo do caraio,
isso também não ta certo!
quero meu computador
pois preciso trabalhar
deixa dessa ingrizia
manda meu bichinho cá,
100 dias é uma era
pra quem nunca foi de espera,
desse jeito não vai dar.
voce da twitosfera
retuiter esse poema
vamos ganhar essa luta
a@Sony é grande, não tema!
Unidos nós somo mais!
Pra frente nunca pra trás
pois vencer é nosso lema!
zé do biu das alagoas
levei para autorizada
a moça lá me falou
daqui a 9 dias
ta resolvido a parada.
passaram 100 dias
que Vaio que @Sony que nada!
Depois de 40 dias
a moça então me falou
infelizmente não tem peça
para o seu computador,
a @Sony vai te dar um novo
porque ela ama seu povo,
reconheça seu valor.
100 dias passados
nada do meu Vaio chegar
eu falei com meus botões:
começou a complicar
e
vou botar pra empenar
reuno minha turma no twitter
eles não vão me faltar.
sou um sujeito pacato
compridor do meu dever
ando sempre numa linha
é firme meu proceder
mas ser passado pra trás
isso ninguém me faz,
boto logo pra moer.
@SonyBr manda logo o que é meu
quero ficar sossegado
trabalhando em meu cantinho
muito bem despreocupado,
sei que esperar não presta
e esse custo da mulesta
ta me deixando arretado!
já apelei pra Bashô
poeta do verso reto
salve Akira e Mishima
no seu supremo dialeto,
Mas a @Sony e o seu Vaio
tá num custo do caraio,
isso também não ta certo!
quero meu computador
pois preciso trabalhar
deixa dessa ingrizia
manda meu bichinho cá,
100 dias é uma era
pra quem nunca foi de espera,
desse jeito não vai dar.
voce da twitosfera
retuiter esse poema
vamos ganhar essa luta
a@Sony é grande, não tema!
Unidos nós somo mais!
Pra frente nunca pra trás
pois vencer é nosso lema!
zé do biu das alagoas
sábado, 26 de março de 2011
Santo Inácio da Catingueira
A peleja da fundação:
Ignacio da Catingueira
versus
Romano da Mãe d'Água
Dizem que esta seria a peleja fundadora de todas as pelejas.
Nada ficou escrito pelos cantadores. Talvez sequer soubessem ler.
Há fragmentos anotados aqui e acolá nos cordéis de outros cantadores.
Inácio da Catingueira seria escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, seria um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feita da Vila de Patos, PB, em 1870.
O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.
--------------------------------------------------------------------------------
Iganácio Romano
--------------------------------------------------------------------------------
Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.
Negro, me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.
Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.
Negro, vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.
Seu Romano, em vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de doutor.
Inaço, que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.
Seu Romano, eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.
Inaço, deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?
Inaço da Catinguera,
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.
Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.
Inaço da Catinguera
É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.
Romano, o meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.
Seu Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.
Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.
Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu.
Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acreditar.
Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão trabalhar.
Seu Romano, sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
Seu Romano só tem um.
Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco!
Seu Romano, meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo!
Negro, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho.
Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboclo,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco.
Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teco-teco!
Seu Romano, não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.
Negro se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.
Seu Romano fazê isso
Té arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá.
Romano Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia.
Seu Romano, a fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá.
Romano da Catingueira
Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó.
Seu Romano carapina,
Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage.
Romano, olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.
Seu Romano eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.
Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.
Eu penso que o panariço
É dorzinha impertinente;
Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente.
Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...
Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.
Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,
O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação.
Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,
Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.
Seu Romano me parece,
Eu que não sou aprendido,
É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido.
Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,
Moça nova sem namoro
E véia sem ser titia.
Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...
Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:
Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...
Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:
Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.
Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...
Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê.
O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,
O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado.
No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado
No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.
Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.
Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;
Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!
Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou
Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.
Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!
O que você faz de espada
Desmancho de canivete...
O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...
Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta.
Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma coceira ardente
É um vexame tão grande
Que não há diabo que agüente.
Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,
Fica o corpo sem governo
A alma vai-e-não-vai.
Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!
Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.
Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tanta gente
Inda não foi pra cadeia!
Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...
Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...
Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...
O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,
O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...
Romano da Catingueira
Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.
Meu branco dou-lhe um conselho,
Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.
Inaço da Catinguera
Fala como uma folhinha...
Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...
Seu Romano, eu pra cantá
Não preciso passaporte...
É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.
Negro, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.
Seu Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.
Negro, as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.
Seu Romano não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.
Inaço, tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.
Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.
Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.
Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.
Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.
Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.
Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.
Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.
Meu Deus, o que tem
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.
Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de
Ou com vergonha da gente.
Inaço, tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?
Seu Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.
Negro, ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.
Meu branco, dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.
Negro, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.
É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Castelo.
Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.
Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.
Antes de eu ir, outro dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!
Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.
Inaço, eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.
Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.
Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.
Seu Romano, lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.
Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.
Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.
Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.
O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Inaço, eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.
Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.
Negro, eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.
Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.
A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.
Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.
Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.
Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.
Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.
Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.
Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.
Inaço, vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.
Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.
Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,
Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
desata, agora,
O nó que Romano deu.
Seu Romano, desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.
Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.
...Fim...
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A peleja da fundação:
Ignacio da Catingueira
versus
Romano da Mãe d'Água
Dizem que esta seria a peleja fundadora de todas as pelejas.
Nada ficou escrito pelos cantadores. Talvez sequer soubessem ler.
Há fragmentos anotados aqui e acolá nos cordéis de outros cantadores.
Inácio da Catingueira seria escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, seria um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feita da Vila de Patos, PB, em 1870.
O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.
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Iganácio Romano
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Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.
Negro, me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.
Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.
Negro, vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.
Seu Romano, em vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de doutor.
Inaço, que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.
Seu Romano, eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.
Inaço, deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?
Inaço da Catinguera,
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.
Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.
Inaço da Catinguera
É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.
Romano, o meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.
Seu Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.
Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.
Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu.
Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acreditar.
Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão trabalhar.
Seu Romano, sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
Seu Romano só tem um.
Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco!
Seu Romano, meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo!
Negro, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho.
Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboclo,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco.
Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teco-teco!
Seu Romano, não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.
Negro se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.
Seu Romano fazê isso
Té arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá.
Romano Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia.
Seu Romano, a fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá.
Romano da Catingueira
Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó.
Seu Romano carapina,
Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage.
Romano, olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.
Seu Romano eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.
Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.
Eu penso que o panariço
É dorzinha impertinente;
Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente.
Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...
Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.
Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,
O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação.
Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,
Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.
Seu Romano me parece,
Eu que não sou aprendido,
É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido.
Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,
Moça nova sem namoro
E véia sem ser titia.
Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...
Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:
Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...
Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:
Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.
Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...
Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê.
O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,
O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado.
No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado
No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.
Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.
Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;
Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!
Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou
Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.
Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!
O que você faz de espada
Desmancho de canivete...
O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...
Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta.
Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma coceira ardente
É um vexame tão grande
Que não há diabo que agüente.
Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,
Fica o corpo sem governo
A alma vai-e-não-vai.
Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!
Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.
Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tanta gente
Inda não foi pra cadeia!
Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...
Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...
Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...
O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,
O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...
Romano da Catingueira
Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.
Meu branco dou-lhe um conselho,
Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.
Inaço da Catinguera
Fala como uma folhinha...
Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...
Seu Romano, eu pra cantá
Não preciso passaporte...
É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.
Negro, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.
Seu Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.
Negro, as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.
Seu Romano não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.
Inaço, tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.
Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.
Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.
Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.
Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.
Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.
Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.
Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.
Meu Deus, o que tem
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.
Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de
Ou com vergonha da gente.
Inaço, tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?
Seu Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.
Negro, ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.
Meu branco, dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.
Negro, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.
É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Castelo.
Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.
Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.
Antes de eu ir, outro dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!
Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.
Inaço, eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.
Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.
Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.
Seu Romano, lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.
Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.
Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.
Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.
O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Inaço, eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.
Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.
Negro, eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.
Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.
A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.
Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.
Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.
Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.
Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.
Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.
Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.
Inaço, vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.
Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.
Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,
Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
desata, agora,
O nó que Romano deu.
Seu Romano, desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.
Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.
...Fim...
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A peleja da fundação:
Ignacio da Catingueira
versus
Romano da Mãe d'Água
Dizem que esta seria a peleja fundadora de todas as pelejas.
Nada ficou escrito pelos cantadores. Talvez sequer soubessem ler.
Há fragmentos anotados aqui e acolá nos cordéis de outros cantadores.
Inácio da Catingueira seria escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, seria um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feita da Vila de Patos, PB, em 1870.
O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.
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Iganácio Romano
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Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.
Negro, me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.
Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.
Negro, vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.
Seu Romano, em vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de doutor.
Inaço, que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.
Seu Romano, eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.
Inaço, deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?
Inaço da Catinguera,
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.
Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.
Inaço da Catinguera
É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.
Romano, o meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.
Seu Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.
Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.
Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu.
Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acreditar.
Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão trabalhar.
Seu Romano, sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
Seu Romano só tem um.
Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco!
Seu Romano, meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo!
Negro, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho.
Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboclo,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco.
Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teco-teco!
Seu Romano, não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.
Negro se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.
Seu Romano fazê isso
Té arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá.
Romano Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia.
Seu Romano, a fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá.
Romano da Catingueira
Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó.
Seu Romano carapina,
Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage.
Romano, olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.
Seu Romano eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.
Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.
Eu penso que o panariço
É dorzinha impertinente;
Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente.
Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...
Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.
Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,
O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação.
Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,
Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.
Seu Romano me parece,
Eu que não sou aprendido,
É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido.
Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,
Moça nova sem namoro
E véia sem ser titia.
Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...
Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:
Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...
Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:
Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.
Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...
Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê.
O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,
O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado.
No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado
No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.
Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.
Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;
Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!
Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou
Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.
Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!
O que você faz de espada
Desmancho de canivete...
O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...
Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta.
Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma coceira ardente
É um vexame tão grande
Que não há diabo que agüente.
Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,
Fica o corpo sem governo
A alma vai-e-não-vai.
Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!
Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.
Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tanta gente
Inda não foi pra cadeia!
Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...
Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...
Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...
O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,
O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...
Romano da Catingueira
Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.
Meu branco dou-lhe um conselho,
Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.
Inaço da Catinguera
Fala como uma folhinha...
Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...
Seu Romano, eu pra cantá
Não preciso passaporte...
É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.
Negro, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.
Seu Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.
Negro, as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.
Seu Romano não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.
Inaço, tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.
Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.
Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.
Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.
Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.
Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.
Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.
Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.
Meu Deus, o que tem
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.
Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de
Ou com vergonha da gente.
Inaço, tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?
Seu Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.
Negro, ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.
Meu branco, dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.
Negro, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.
É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Castelo.
Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.
Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.
Antes de eu ir, outro dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!
Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.
Inaço, eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.
Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.
Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.
Seu Romano, lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.
Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.
Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.
Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.
O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Inaço, eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.
Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.
Negro, eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.
Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.
A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.
Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.
Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.
Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.
Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.
Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.
Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.
Inaço, vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.
Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.
Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,
Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
desata, agora,
O nó que Romano deu.
Seu Romano, desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.
Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.
...Fim...
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Ignacio da Catingueira
versus
Romano da Mãe d'Água
Dizem que esta seria a peleja fundadora de todas as pelejas.
Nada ficou escrito pelos cantadores. Talvez sequer soubessem ler.
Há fragmentos anotados aqui e acolá nos cordéis de outros cantadores.
Inácio da Catingueira seria escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, seria um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feita da Vila de Patos, PB, em 1870.
O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.
--------------------------------------------------------------------------------
Iganácio Romano
--------------------------------------------------------------------------------
Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.
Negro, me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.
Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.
Negro, vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.
Seu Romano, em vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de doutor.
Inaço, que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.
Seu Romano, eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.
Inaço, deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?
Inaço da Catinguera,
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.
Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.
Inaço da Catinguera
É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.
Romano, o meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.
Seu Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.
Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.
Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu.
Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acreditar.
Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão trabalhar.
Seu Romano, sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
Seu Romano só tem um.
Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco!
Seu Romano, meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo!
Negro, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho.
Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboclo,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco.
Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teco-teco!
Seu Romano, não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.
Negro se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.
Seu Romano fazê isso
Té arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá.
Romano Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia.
Seu Romano, a fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá.
Romano da Catingueira
Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó.
Seu Romano carapina,
Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage.
Romano, olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.
Seu Romano eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.
Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.
Eu penso que o panariço
É dorzinha impertinente;
Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente.
Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...
Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.
Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,
O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação.
Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,
Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.
Seu Romano me parece,
Eu que não sou aprendido,
É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido.
Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,
Moça nova sem namoro
E véia sem ser titia.
Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...
Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:
Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...
Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:
Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.
Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...
Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê.
O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,
O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado.
No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado
No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.
Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.
Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;
Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!
Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou
Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.
Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!
O que você faz de espada
Desmancho de canivete...
O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...
Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta.
Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma coceira ardente
É um vexame tão grande
Que não há diabo que agüente.
Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,
Fica o corpo sem governo
A alma vai-e-não-vai.
Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!
Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.
Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tanta gente
Inda não foi pra cadeia!
Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...
Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...
Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...
O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,
O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...
Romano da Catingueira
Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.
Meu branco dou-lhe um conselho,
Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.
Inaço da Catinguera
Fala como uma folhinha...
Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...
Seu Romano, eu pra cantá
Não preciso passaporte...
É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.
Negro, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.
Seu Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.
Negro, as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.
Seu Romano não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.
Inaço, tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.
Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.
Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.
Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.
Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.
Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.
Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.
Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.
Meu Deus, o que tem
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.
Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de
Ou com vergonha da gente.
Inaço, tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?
Seu Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.
Negro, ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.
Meu branco, dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.
Negro, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.
É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Castelo.
Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.
Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.
Antes de eu ir, outro dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!
Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.
Inaço, eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.
Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.
Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.
Seu Romano, lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.
Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.
Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.
Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.
O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Inaço, eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.
Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.
Negro, eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.
Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.
A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.
Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.
Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.
Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.
Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.
Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.
Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.
Inaço, vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.
Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.
Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,
Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
desata, agora,
O nó que Romano deu.
Seu Romano, desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.
Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.
...Fim...
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A peleja da fundação:
Ignacio da Catingueira
versus
Romano da Mãe d'Água
Dizem que esta seria a peleja fundadora de todas as pelejas.
Nada ficou escrito pelos cantadores. Talvez sequer soubessem ler.
Há fragmentos anotados aqui e acolá nos cordéis de outros cantadores.
Inácio da Catingueira seria escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, seria um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feita da Vila de Patos, PB, em 1870.
O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.
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Iganácio Romano
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Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.
Negro, me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.
Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.
Negro, vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.
Seu Romano, em vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de doutor.
Inaço, que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.
Seu Romano, eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.
Inaço, deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?
Inaço da Catinguera,
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.
Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.
Inaço da Catinguera
É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.
Romano, o meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.
Seu Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.
Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.
Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu.
Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acreditar.
Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão trabalhar.
Seu Romano, sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
Seu Romano só tem um.
Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco!
Seu Romano, meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo!
Negro, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho.
Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboclo,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco.
Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teco-teco!
Seu Romano, não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.
Negro se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.
Seu Romano fazê isso
Té arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá.
Romano Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia.
Seu Romano, a fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá.
Romano da Catingueira
Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó.
Seu Romano carapina,
Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage.
Romano, olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.
Seu Romano eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.
Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.
Eu penso que o panariço
É dorzinha impertinente;
Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente.
Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...
Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.
Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,
O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação.
Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,
Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.
Seu Romano me parece,
Eu que não sou aprendido,
É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido.
Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,
Moça nova sem namoro
E véia sem ser titia.
Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...
Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:
Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...
Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:
Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.
Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...
Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê.
O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,
O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado.
No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado
No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.
Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.
Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;
Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!
Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou
Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.
Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!
O que você faz de espada
Desmancho de canivete...
O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...
Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta.
Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma coceira ardente
É um vexame tão grande
Que não há diabo que agüente.
Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,
Fica o corpo sem governo
A alma vai-e-não-vai.
Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!
Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.
Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tanta gente
Inda não foi pra cadeia!
Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...
Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...
Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...
O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,
O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...
Romano da Catingueira
Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.
Meu branco dou-lhe um conselho,
Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.
Inaço da Catinguera
Fala como uma folhinha...
Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...
Seu Romano, eu pra cantá
Não preciso passaporte...
É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.
Negro, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.
Seu Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.
Negro, as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.
Seu Romano não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.
Inaço, tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.
Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.
Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.
Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.
Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.
Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.
Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.
Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.
Meu Deus, o que tem
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.
Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de
Ou com vergonha da gente.
Inaço, tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?
Seu Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.
Negro, ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.
Meu branco, dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.
Negro, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.
É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Castelo.
Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.
Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.
Antes de eu ir, outro dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!
Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.
Inaço, eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.
Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.
Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.
Seu Romano, lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.
Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.
Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.
Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.
O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Inaço, eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.
Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.
Negro, eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.
Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.
A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.
Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.
Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.
Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.
Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.
Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.
Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.
Inaço, vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.
Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.
Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,
Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
desata, agora,
O nó que Romano deu.
Seu Romano, desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.
Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.
...Fim...
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A peleja da fundação:
Ignacio da Catingueira
versus
Romano da Mãe d'Água
Dizem que esta seria a peleja fundadora de todas as pelejas.
Nada ficou escrito pelos cantadores. Talvez sequer soubessem ler.
Há fragmentos anotados aqui e acolá nos cordéis de outros cantadores.
Inácio da Catingueira seria escravo. Romano da Mãe D’água, dito Romano Caluete, seria um pequeno proprietário rural, ambos paraibanos, e teriam travado esta peleja na feita da Vila de Patos, PB, em 1870.
O poeta Luiz Nunes Alves fez esta unificação tomando por base os diversos fragmentos que correm na boca do povo, já registrados por Ugolino do Cabugi, Leandro Gomes de Matos, Leonardo Mota, Silvino Pirauá, Chagas Batista, Padre Manuel Otaviano, Rodrigues de Carvalho e Nestor Diógenes.
--------------------------------------------------------------------------------
Iganácio Romano
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Me tirem de um engano:
Me apontem com o dedo
Quem é Francisco Romano,
Pois eu ando no seu piso
Já não sei há quantos anos.
Negro, me diga o seu nome
Que eu quero ser sabedor,
Se é solteiro ou casado,
Aonde é morador,
Se acaso for cativo,
Diga quem é seu senhor.
Eu sou muito conhecido,
Aqui nesta ribeira,
Este é o seu criado
da Catingueira.
Dentro da Vila de Patos,
Compro, vendo e faço feira.
Negro, vieste a Patos
Procurando quem te forre
Volta pra trás, meu negrinho
Que aqui ninguém te socorre;
E quem cai nas minhas unhas
Apanha, deserta ou morre.
Seu Romano, em vim a Patos
Pela fama do senhor,
Que me disseram que era
Mestre e rei de cantador;
E que dentro de um salão
Tem discurso de doutor.
Inaço, que andas fazendo
Aqui nesta freguesia,
Cadê o teu passaporte,
A tua carta de guia
Aonde tá teu sinhô
Cadê a tua famia.
Seu Romano, eu sou cativo,
Trabalho para meu sinhô...
Quando vou para uma festa
Foi ele quem me mandou,
E quando saio escondido
Ele sabe pronde eu vou.
Inaço, deixa-te disto,
Não te possa acreditá
Pois eu também tenho nego
E só mando trabaiá...
Como é que teu sinhô
Vai te mandá vadiá?
Inaço da Catinguera,
Escravo de Mané Luiz
Tanto corta com risca,
Como sustenta o que diz!
Sou vigaro capelão
E sacristão da matriz.
Este aqui é seu Romano
Dentaria de elefante,
Barbatana de baleia,
Força de trinta gigante,
É ouro que não mareia,
Pedra fina e diamante.
Inaço da Catinguera
É nego desengonçado:
Abre cacimba no seco
Dá em baixo do muiado...
Aperta sem sê troquês,
Corta pau sem sê machado.
Romano, o meu martelo,
Por bom ferreiro é forjado;
Tanto ele é bom de aço,
Como está bem temperado;
A forja onde ele foi eito
É toda de aço blindado.
Seu Romano, eu lhe garanto
Que resisto ao seu martelo;
Ao talho do seu facão,
Ao corte do seu cutelo;
Se eu morrer na peleja,
Lhe vencerei no duelo.
Negro criado vadio
Tem por fim acabar má;
Uns casam com mulher forra
Outros dão pra roubá.
Outros fogem do serviço
Com medo de trabalhá.
Eu felizmente não sou
Escravo de senhor cru,
Que trabalha todo o dia
De noite faz quinguingu
Aparpando no escuro
Fossando que nem tatu.
Estou ouvindo as tuas loas,
Não te possa acreditar.
Que eu também tenho escravo
Mas não mando vadiar,
Que eu saio pra divertir
Os negros vão trabalhar.
Seu Romano, sou cativo,
Mas trabalho no comum.
Dar descanso a seus escravos
É gosto de cada um
Meu sinhô tem muito negro,
Seu Romano só tem um.
Pra negro eu tenho chicote
E palmatória e trabuco.
Boto-o na mesa do carro
Passo por cima e machuco
Vadeio de lá pra cá:
Traco-traco! Truco-truco!
Seu Romano, meu facão
Também trabalha em seu quengo!
Desmastreio-te a carreira
Como um cavalo de rengo
E vou de uma banda pra outra
Traco-traco! Tengo-tengo!
Negro, se eu te pegar
Numa volta de caminho
Eu te faço um agrado,
Com meu chicote um carinho
Se a camisa for nova
Só te deixo o colarinho.
Sou abelha de ferrão
Sou besouro de caboclo,
Se eu pegar seu Romano,
Dou um arrocho, deixo-o rouco
De quebrar-lhe as canelas
Só deixar-lhe dois catoco.
Negro você não me venha
Que se vier eu lhe abeco
Sacudo-o em cima da forja,
Com os fole eu te sapeco,
Boto-te em cima da safra,
Com dois malhos, teco-teco!
Seu Romano, não se alegre
Que a hora não acabou-se.
Eu derrubo de machado,
Acabo, pico de foice.
Valentão que vir a mim
Mato-o de queda e de coice.
Negro se tu me cercares
Com quatrocentos caifai
Cem de uma banda, cem de outra
Cem adiante, cem atrai
Isto é que é tapa que dou
Isto é que é nego que cai.
Seu Romano fazê isso
Té arriscado a passar má
Vai o chumbo, vai a bala
Vai o nó do caruá.
Dá-lhe os nego, dá-lhe as nega
E os molequim também dá.
Romano Na minha não passa
Negro sem carta de guia
Boto-lhe o surrão abaixo
Para fazer vistoria
Se é cativo ou se é liberto
Se é casado e tem famia.
Seu Romano, a fazer isto
Certamente passa má
Vai a bala, vai o chumbo,
Vai a corda de crauá
Dá-lhe os negro, dá-lhe as negra
Dá-lhe tudo, tudo dá.
Romano da Catingueira
Madeira do Piancó
Eu boto-lhe no meu machado
E tiro-a toda no pó
Boto-lhe a régua em cima
E desempeno de enxó.
Seu Romano carapina,
Carregue boa ferrage
Sou braúna, angico torto
Sou pedra mármore, em lage,
Sou lagedo, penedia,
Logo seu ferro é bobage.
Romano, olha que eu tenho
Força e muita inteligência,
Não me falta no meu estro
A veloz reminiscência;
Muitas vezes tenho dado
Em cantador de ciência.
Seu Romano eu só garanto
É que ciência eu não tenho,
Mas para desenganá-lo
Cantar consigo hoje venho;
Abra os olhos, cuide em si,
Pra não perder seu desenho.
Inaço faça um favô
Me diga lá num repente
Qual é a dor que mais dói,
Que mais atormenta a gente.
Eu penso que o panariço
É dorzinha impertinente;
Mas porém tem muitas outra
Que eu lhe digo, no repente:
Ferroada de lacrau
Faz o pé ficar dormente;
Tem outra dô condenada,
É pisá-se em brasa quente.
Sou que nem dois telegrama:
Quando um assobe outro desce...
Inaço, você me diga,
Que nunca achei quem dissesse,
Qual é a erva do mato
Que o próprio cego conhece.
Neste negócio de mato
Sou quase decurião...
Corto o baraio onde quero,
Dou carta e jogo de mão;
No mato tem uma erva,
Queima e arde como o chão,
O próprio cego conhece:
É urtiga ou cansação.
Inaço, se és tão sabido,
Responda sem estudá,
Qual é o tranze da vida
Que mais nos faz apertá,
Que até nos tira a alegria,
O jeito de conversá,
O sono durante a noite,
A vontade de almoçá.
Seu Romano me parece,
Eu que não sou aprendido,
É quando morre a mulhé,
Ou quando morre o marido,
Nosso pai ou nossa mãe,
O nosso filho querido,
Quando chega em nossa porta
Um credô aborrecido.
Tomara achar quem me mostre
Uma casa sem Maria,
Mês que não tenha semana,
Uma semana sem dia,
Altá de igreja sem santo,
Vigaro sem freguesia,
Moça nova sem namoro
E véia sem ser titia.
Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso...
Há certas coisas na vida
Que, se dando, é raridade:
Menino não querê leite,
Soldado ter castidade,
Rapariga sem enfeite,
Gente sonsa sem maldade,
Moça passar dos trint’anos,
Dizer direito a idade.
Há dez coisas neste mundo
Que toda gente procura:
É dinheiro e é bondade,
Água fria e formosura,
Cavalo bom e mulhé,
Requeijão com rapadura,
Morá sem ser agregado,
Comê carne sem gordura...
Quando eu era pequenino,
No tempo em que eu vadiava,
No lugá onde eu nasci
A minha força eu mostrava:
Não deixei pau pra semente,
Pela raiz eu cortava.
Nunca vi ninguém no mundo
Indigestá sem cumê,
Navio corrê no seco,
Atolero sem chuvê...
Também nunca vi no mundo,
Por isso queria vê
Tirá pau pela raiz
Só vendo é que posso crê:
Só se era mata-pasto,
Canapum ou muçambê.
O pau que eu tirá de foice,
Tu não tira de machado;
No mato que eu entrá nu,
Cabra não entra encourado;
Barbatão que eu pegá solto
Botas no mato, peado.
Seu Romano inda não viu
O tamanho do meu roçado:
Grita-se aqui num aceiro
Ninguém ouve do outro lado,
Eu faço coisa dormindo
Que outro não faz acordado,
O que o sinhô fizé em pé
Eu faço mesmo deitado.
No lugar onde eu campeio
Tu mesmo não tira gado;
Faço figura no limpo
Faço mió no fechado
No poço que eu tomá pé
Você morre é afogado.
Coisa que eu faço no mato
Ninguém faz no tabolero
O que o branco faz no duro
eu faço num atolero;
O que faz no mês de março
Eu tenho feito em janeiro,
O branco bem amontado
O nego em qualquer sendeiro
A concessão que lhe faço
É correr no meu acero
Embora o diabo lhe ajude
Eu derrubo o boi primeiro.
Eu já tenho dado em touro
Que quando ronca estremece
Tenho domado leão
Até que ele me obedece;
Já dei em muitos cantores
Mas nunca achei quem me desse!
Com touros e com leões
Seu Romano já brigou
Mas se o povo se acalmar
Eu hei de mostrar quem sou
Quero dar em seu Romano
Que diz que nunca apanhou.
Se você vê que não pode
Comigo, é bom que se aquete:
Enquanto derrubá um,
Eu despacho mais de sete!
O que você faz de espada
Desmancho de canivete...
O senhor nunca me viu
Frangi o couro da venta,
Meu cabelo se arpoá
E a testa ficar cinzenta...
Cantadô, quando eu me agasto,
Esfria com água benta.
Quando pego um cantador,
Adoece de repente,
Dá-lhe uma dor de cabeça
E uma coceira ardente
É um vexame tão grande
Que não há diabo que agüente.
Meu martelo tem azougue
Cantador dele não sai,
Dá-lhe um frio com tontura,
Seca a carne a língua cai,
Fica o corpo sem governo
A alma vai-e-não-vai.
Inaço, tu tem cabeça
Porém juízo não tem!
Um gigante nos meus braços
Aperto não é ninguém!
Aperto um dobrão nos dedo
Faço virar um vintém.
Tem coisa que dá vontade
Me meter na vida alheia:
Quem mata assim tanta gente
Inda não foi pra cadeia!
Pegá um gigante à mão
E não ficá ca mão cheia!
Rebentar dobrão nos dedo
E não quebrá uma veia:
Esse dobrão é de cera,
Esse gigante é de areia...
Inaço, fica sabendo
Que sou rei nesta ribera!
Tá me dando uma veneta
Fazê uma brincadera:
Eu quero mudá-te o nome
De Inaço da Catinguera...
Desse pau tão duro e forte
Eu faço burra leitera
E se me dé na cabeça
Faço virá bananera...
O branco mais muita gente,
O negrinho mermo só,
O branco vem de cacete,
E eu recebo a cipó...
No pau que fizé entalha
Eu lavro sem deixá nó:
O branco corta a machado,
Eu lavro mermo de enxó...
Romano da Catingueira
Se mete a cantar repente,
Negro me trata melhor,
Que estamos em meio de gente
Queira Deus você não saia
Da sala de couro quente.
Meu branco dou-lhe um conselho,
Espero o sinhô tomar,
Se tire desse sentido,
Se arrede desse pensar,
Juro com todos os dedo
Que um homem só não me dá.
Inaço da Catinguera
Fala como uma folhinha...
Não quero escutá bobage,
Guarda a tua ladainha,
Não és pra me dá conselho:
Quando tu ia eu já vinha...
Seu Romano, eu pra cantá
Não preciso passaporte...
É um dom da natureza
Um favor da minha sorte!
Em negócio de cantiga
Tenho feito muita morte.
Negro, se tu pretendes
Contra mim te armar em guerra,
Verás eu tirar-te a vida,
Deixar-te inerte, na terra,
E botar no teu cadáver
Serra por cima de serra.
Seu Romano, eu tenho visto
Cantor que diz que é sabido,
Vir pelejar contra mim
Mas quando se ver perdido,
Chora pedindo desculpas
Dizendo: estava iludido.
Negro, as tuas façanhas
Eu delas não faço conta,
Tu te opondo contra mim
Dás murro em faca de ponta;
Eu monto no teu cangote
Mas no meu ninguém se monta.
Seu Romano não faz conta
Porém eu hoje desmancho
Tudo o que o sinhô fizer:
Toco-lhe fogo no rancho,
Cuide em si que o negro velho
Dá-lhe um serviço de gancho.
Inaço, tu nunca viste
Eu mais meu mano em serviço.
Somo como dois machados,
No tronco de um pau maciço;
Um é raio abrasador,
Outro é trovão inteiriço.
Eu bem sei que seu Veríssimo
No martelo é rei c’roado;
Mas, leve ele à Catingueira
Muito bem apadrinhado,
E verá como é que apanha
O padrim e o afilhado.
Coitadim de Catingueira
Aonde vei se socar,
Dentro de uma mata escura
Onde não pode enxergar,
Ele vei por inocente,
Não volta sem apanhar.
Coitadim de seu Romano,
Aonde ele vei caí,
Nas unhas de um gavião,
Sendo ele um bentivi,
Está se vendo apertado
Como peixe no jiqui.
Romano quando se zanga
Treme o Norte, abala o Sul
Solta bomba envenenada
Vomitando fogo azul
Desmancha nego nos are
Que cai virado em paul.
Inaço quando se assanha
Cai estrela, a terra treme,
O Sol esbarra o seu curso,
O Mar abala-se e geme,
Pega fogo o mundo em roda
E nada disso o nego teme.
Hoje aqui tem de se ver
Relampos de caracol,
Os nevoeiros pararem
E eclipsar-se o Sol;
Secarem as águas do Mar,
Pescar baleia de anzol.
Hoje aqui tem de se ver
Como o ferreiro trabalha,
Como se caldeia ferro,
Como o aço se esbandalha;
Como se broqueia pedra,
Como se estoura a metralha.
Meu Deus, o que tem
Que no cantar se atrapalha?
Sustenta o ferro na mão,
Que estou na primeira entalha,
Teu ferro está se virando
E o meu não mostra falha.
Meu Deus, que tem seu Romano
Parece que está doente?
Está temendo a desfeita,
Ou o bote da serpente,
Ou está com medo de
Ou com vergonha da gente.
Inaço, tenho cantado
Com muita gente de tino;
No sul com Manoel Carneiro,
No Sabugi com Ugolino,
Como não canto contigo
Que és fraco e pequenino?
Seu Romano, abra os olhos
Com esse preto moreno
Tenha medo da botada
Da serpente e do veneno;
Eu já tenho visto grande
Apanhar dum mais pequeno.
Negro, ainda me abalo
Lá da serra do Teixeira,
Levo meu mano Veríssimo
Vamos dar-te uma carreira,
Dar-te uma surra em martelo
E tomar-te a Catingueira.
Meu branco, dou-lhe um conselho
Se voimincê me atende;
Se for para nós brincar
Pode ir que não me ofende
Mas pra tomar Catingueira
Não vá não que se arrepende.
Negro, tu me conheces,
Já sabes bem eu quem sou;
Mas quero te prevenir
Que na Catingueira eu vou
Derrubar o teu Castelo
Que nunca se derrubou.
É mais fácil um boi voá
Um cururu ficar belo,
Aruá jogar cacete
E cobra calçar chinelo,
Do que haver valentão
Que derrube o meu Castelo.
Quem quer ferir inimigo
Não faz ponto nem avisa;
Quando eu for à Catingueira,
Nesse dia o sol se incrisa;
Inda vou lá, fique certo,
Somente dar-te uma pisa.
Me diga o dia em que vai,
Quais são os seus companheiros.
O senhor pode levar
Dez ou doze cangaceiros;
Que a todos eu saio a peito
Como um valente guerreiro.
Antes de eu ir, outro dia,
Te mandarei um aviso
Você, tando em casa, corre
Porque você tem juízo...
E eu vou só fazê estrago:
Quebro, rasgo, queimo e piso!
Quando for procure um padre
Que o ouça em confissão,
Deixa a cova bem cavada
E deixe a encomendação
Leve a rede onde é de vir
E já prontinho o caixão.
Inaço, eu sei que é duro,
Mas é lá na Catingueira
Na Mãe d’água, onde eu moro,
Não descambas a ladeira.
Mais fácil o diabo ir ao Céu
Do que ires ao Teixeira.
Meu branco não diga isso
Que o sinhô não me conhece
Veja quando o Sol sair
Com a luz que resplandece
Olhe para os quatro lados
Que o negro velho aparece.
Negro, eu só canto contigo
Por um amigo me pedir
Visto me sacrificar,
Não me importa de ferir...
Cavo onde achar mais mole
E bato enquanto bulir.
Seu Romano, lhe aconselho,
Não cometa tal perigo,
a Deus que lhe defenda
Do laço do inimigo,
Antes morrer enforcado
Do que pelejar comigo.
Negro, canta com mais jeito,
Vê a tua qualidade.
Eu sou branco, tu um vulto
perante a sociedade.
Eu em vir cantar contigo
Baixo de dignidade.
Esta sua frase agora
Me deixou admirado...
O sinhô para ser branco,
Seu couro é muito queimado,
Sua cor imita a minha,
Seu cabelo é agastado.
Com negro não canto mais
Perante a sociedade.
Estou dando cabimento
Ele está com liberdade.
Por isso vou me calar,
Mesmo por minha vontade.
O sinhô me chama negro,
Pensando que me acabrunha.
O sinhô de home branco
Só tem os dente e as unha,
A sua pele é queimada,
Seu cabelo é testemunha.
Inaço, eu estou ciente
Que tu és um negro ativo;
Mas não estou satisfeito,
Devo te ser positivo:
Me abate hoje em cantar
Com um negro que é cativo.
Na verdade, seu Romano,
Eu sou negro confiado!
Eu negro e o sinhô branco
Da cor de café torrado!
Seu avô vei ao Brasil
Para ser negociado.
Negro, eu vou te pedir,
Vamos deixar o passado,
Esquecer quem foi cativo,
Que nos dá mais resultado.
Acabar a discussão
Esquecer todo o atrasado.
Isso aí é outra coisa.
Eu não luto sem motivo.
O sinhô também esqueça
O povo que foi cativo.
Quem tem defunto ladrão
Não fala em roubo de vivo.
A desgraça do home rico
É dar importância a pobre.
Sendo eu a prata fina
Vim me misturar com cobre.
Grande castigo merece
Quem se abate sendo nobre.
Esta agora é engraçada,
Eu digo com toda fé:
De prata se faz arreio,
Faz faca, garfo e cuié,
De prata se faz espora
Pra negro botar no pé.
Já faço tu te calar
Não quero articulação.
Vamos à geografia
Que chama o povo à atenção.
Vê se sabes ou se podes
Me dar uma explicação.
Seu Romano, ainda me lembro
Que meu sinhô me dizia
Que o mundo tem cinco partes,
É Ásia e Oceania,
Europa, América e África,
Assim diz a geografia.
Então deves conhecer
Cabos, estreiros e mar,
Os golfos, as raças todas
Onde puderam habitar.
Afina tua memória
Que eu quero te perguntar.
Não respondo sua pergunta,
Não conheço academia,
Vivo só do meu roçado,
Nunca vi uma livraria.
Vá perguntar a um doutô
Que é quem sabe geografia.
Meu Deus, que tem esse negro
Que no cantar se maltrata!
Agora Romano velho
Canta um ano e não se mata;
Quanto mais canta mais sabe
E nó que dá ninguém desata.
Eu bem sei que seu Romano
Tá na fama dos anéis;
Canta um ano, canta dois,
Canta seis, sete, e dez;
Mas o nó que der com as mãos
Eu desmancho com os pés.
Inaço, vamos parar,
Estou com dor de cabeça.
Preciso de algum repouso
Antes que o dia amanheça.
Estou com cara de sono
Sem ter mais quem me conheça.
Sua doença, seu Romano,
Está muito conhecida.
Melhor rasgar o tumor
Antes que vire ferida.
O reis por perder o trono
Não deve perder a vida.
Latona, Cibele, Réa,
Íris, Vulcano, Netuno,
Minerva, Diana, Juno,
Anfitrite, Androcéia,
Vênus, Climene, Amaltéia,
Plutão, Mercúrio, Teseu,
Júpiter, Zoilo, Perseu,
Apolo, Ceres, Pandora,
desata, agora,
O nó que Romano deu.
Seu Romano, desse jeito
Eu não posso acompanhá-lo.
Se desse um nó em martelo
Viria eu desatá-lo
Mas como foi em ciência
Cante só que eu me calo.
...Fim...
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Salve Limeira
ZÉ LIMEIRA
(Teixeira, 1886 - 1954) foi o cordelista/repentista mais mitológico do Brasil. Era conhecido como "Poeta do Absurdo".
O meu nome é Zé Limeira
De Lima, Limão , Limansa
As estradas de São Bento
Bezerro de Vaca Mansa
Valha-me, Nossa Senhora
Ai que eu me lembrei agora:
Tão bombardeando a França
Ninguém faça pontaria
Onde o chumbo não alcança
E vou comprá quatro livro
Prá estudá leiturança
Bem que meu pai me dizia:
Jesus , José e Maria,
São João das Orelha mansa
Ainda não tinha visto
Beleza que nem a sua,
De cipó se faz balaio
A beleza continua
Sete-Estrelo, três Maria
Mãe do mato pai da lua
A beleza continua
De cipó se faz balaio
Padre-Nosso, Ave-Maria,
Me pegue senão eu caio
Tá desgraçado o vivente
Que não reza o mês de maio
Sei quando Jesus nasceu,
Num dia de quinta-feira,
Eu fui uma testemunha
Sentado na cabeceira
São José chegou com um facho
De miolo de aroeira
Um dia o Reis Salamão
Dormiu de noite e de dia,
Convidou Napoleão
Pra cantá pilogamia
Viva a Princesa Isabé
Que já morô em Sumé
No tempo da monarquia
Zé Limeira quando canta
Estremece o Cariri
As estrêla trinca os dente
Leão chupa abacaxi
Com trinta dias depois
Estoura a guerra civí
A seguir o mais famos dos textos do cordelista do absurdo:
O Marechal Floriano
Antes de entrar pra Marinha
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano
Foi vaqueiro vinte ano
Fora os dez que foi sargento
Nunca saiu do convento
Nem pra lavar a corveta
Pimenta só malagueta
Diz o Novo Testamento!
Pedro Álvares Cabral
Inventor do telefone
Começou tocar trombone
Na volta de Zé Leal
Mas como tocava mal
Arranjou dois instrumento
Daí chegou um sargento
Querendo enrabar os três
Quem tem razão é o freguês
Diz o Novo Testamento!
(...)
Quando Dom Pedro Segundo
Governava a Palestina
E Dona Leopoldina
Devia a Deus e o mundo
O poeta Zé Raimundo
Começou castrar jumento
Teve um dia um pensamento:
“Tudo aquilo era boato”
Oito noves fora quatro
Diz o Novo Testamento!
Página publicada em dezembro de 2008
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A beleza continua
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Padre-Nosso, Ave-Maria,
Me pegue senão eu caio
Tá desgraçado o vivente
Que não reza o mês de maio
Sei quando Jesus nasceu,
Num dia de quinta-feira,
Eu fui uma testemunha
Sentado na cabeceira
São José chegou com um facho
De miolo de aroeira
Um dia o Reis Salamão
Dormiu de noite e de dia,
Convidou Napoleão
Pra cantá pilogamia
Viva a Princesa Isabé
Que já morô em Sumé
No tempo da monarquia
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Estremece o Cariri
As estrêla trinca os dente
Leão chupa abacaxi
Com trinta dias depois
Estoura a guerra civí
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O Marechal Floriano
Antes de entrar pra Marinha
Perdeu tudo quanto tinha
Numa aposta com um cigano
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Fora os dez que foi sargento
Nunca saiu do convento
Nem pra lavar a corveta
Pimenta só malagueta
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Arranjou dois instrumento
Daí chegou um sargento
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