sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

TREM DE ALAGOAS
O sino bate,
o condutor apita o apito,
solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar...

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Mergulham mocambos
nos mangues molhados ,
moleques mulatos,
vem vê-lo passar.

— Adeus!
— Adeus!

Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...

— Adeus, morena do cabelo cacheado!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

— Ali mora o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe...
No entanto avistamos
bem perto outro mar...

Danou-se! Se move,
parece uma onda...
Que nada! É um partido
já bom de cortar...

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Cana-caiana
cana-roxa
cana-fita
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...

— Adeus, morena do cabelo cacheado!

— Ali dorme o Pai-da-Mata!
— Ali é a casa das caiporas!

— Vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende,
vou danado pra Catende
com vontade de chegar...

Ascenso Ferreira

Do livro: "Poemas de Ascenço Ferreira", Nordestal Editora, 1995, PE
OROPA, FRANÇA E BAHIA

(Romance)

Para os 3 Manuéis:
Manuel Bandeira
Manuel de Sousa Barros
Manuel Gomes Maranhão


Num sobrado arruinado,
tristonho, mal assombrado,
que dava pros fundos da terra.
("Pra ver marujos,
Tirulilluliu!
quando vão pra guerra...")
E dava fundos pro mar.
("Pra ver marujos,
Tiruliluliu!
ao desembarcar").

...Morava Manuel Furtado
português apatacado,
com Maria de Alencar!

Maria era uma cafuza,
cheia de grandes feitiços.
Ah! os seus braços roliços!
Ah! os seus peitos maciços!
Faziam Manuel babar...

A vida de Manuel,
que louco alguém o dizia,
era vigiar das janelas
toda a noite e todo o dia,
as naus que ao longe passavam,
de "Oropa, França e Bahia"!

— Me dá uma nau daquelas,
lhe suplicava Maria.
— Estás idiota, Maria.
Essas naus foram vintena
que eu herdei de minha tia!
por todo o ouro do mundo
eu jamais as trocaria!

Dou-te tudo o que quiseres:
Dou-te xale de Tonquim!
Dou-te uma saia bordada!
Dou-te leques de marfim!
Queijos da Serra da Estrela,
perfumes de benjoim...

Nada.
A mulata só queria
que Seu Manuel lhe desse
uma nauzinha daquelas,
inda a amais pichititinha,
pra ela ir ver essas terras
de "Oropa, França e Bahia"...

— Ó Maria, hoje nós temos
vinhos da Quinta do Aguirre,
umas queijadas de Sintra,
só pra tu te distraíre
desse pensamento ruim...
— Seu Manuel, isso é besteira!
Eu prefiro macaxeira
com galinha de oxinxim!

"Ó lua que alumiais
esse mundo do meu Deus
alumia a mim também
que ando fora dos meus..."
Cantava Seu Manuel
espantando os males seus.

"Eu sou mulata dengosa,
linda, faceira, mimosa,
qual outras brancas não são"...
Cantava forte Maria,
pisando fubá de milho,
lentamente no pilão...

Uma noite de luar
que estava mesmo taful,
mais de 400 naus,
surgiram vindas do Sul...
— Ah, Seu Manuel, isto chega...
Danou-se de escada abaixo,
se atirou no mar azul.

— "Onde vais mulhé?"
— "Vou me daná no carrossé!
— "Tu não vais, mulhé,
mulhé, você não vai lá..."

Maria atirou-se n'água,
Seu Manuel seguiu atrás...
— Quero a mais pichititinha!
— Raios te partam, Maria!
Essas naus são meus tesouros,
ganhou-as matando mouros
o marido de minha tia!
Vêm dos confins do mundo...
De "Oropa, França e Bahia"!

Nadavam de mar em fora...
(Manuel atrás de Maria!)
Passou-se uma hora, outra hora,
e as naus nenhum atingia...
Fez-se um silêncio nas águas,
cadê Manuel e Maria?!

De madrugada, na praia,
dois corpos o mar lambia...
Seu Manuel era um "Boi Morto",
Maria, uma "Cotovia"!

E as naus de Manuel Furtado,
herança de sua tia?

— Continuam mar em fora,
navegando noite e dia...
Caminham para "Pasárgada",
para o reino da Poesia!
Herdou-as Manuel Bandeira,
que ante a minha choradeira,
me deu a menor que havia!

— As eternas Naus do Sonho,
de "Oropa, França e Bahia"...

Ascenso Ferreira

Do livro: "Poemas de Ascenso Ferreira", Nordestal Editora, 1995, PE
Enviado

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

uma entrevista com o poeta luis campos

LUÍS CAMPOS

Luís de Oliveira Campos nasceu em Mossoró aos 11 de outubro de 1939, Luís é considerado como um dos maiores poetas da região. Hoje, apesar dos sérios problemas de visão ele não perde o bom-humor nem a verve poética.

Por Caio César Muniz

O Mossoroense - Você começou o seu trabalho como cantador ou como cordelista?

Luís Campos - Comecei como cantador. A primeira cantoria minha foi em Pedreiras, no Maranhão, no dia 7 de setembro de 1973. Eu saí daqui como rico, eu tinha um comércio, mas quando eu cheguei em Pedreiras eu alisei. Então eu disse: "eu vou me recorrer ao que eu sei". Naquele tempo eu já tocava umas moda de viola, então eu pedi um violão emprestado a um xará meu, mas ele disse que não podia emprestar, mas se eu quisesse ele alugaria, então eu aluguei por cinco cruzeiros. Adaptei as cordas e fiz a minha primeira cantoria com Campo Verde, eu tenho muito orgulho em falar neste nome, porque foi com quem eu estreei como profissional. Desse dinheiro que eu ganhei nesta cantoria em comprei a minha primeira viola.

OM - Na sua época, Luís, com quem você cantava?

LC - Eu viajei por dezessete estados. Eu comecei a cantar em Pedreiras e quando eu cheguei aqui, eu recebi como estreante Ivanildo Vilanova, eu viajei muito com o pai de Ivanildo, depois com Otacílio Batista, Lourival Batista, Chico Pedra, Elizeu Ventania, Nestor Bandeira, Justo Amorim, todos estes do Nordeste, mas peguei muita fera por aí.

OM - Quais os destaques da viola naquela época?

LC - Na época em que eu comecei eram os irmãos Batista - Dimas, Otacílio e Lourival - estes três eram nomes nacionais. Depois veio Ivanildo e tomou a liderança, liderou por muito tempo este movimento. Teve também o saudoso Severino Ferreira, que Deus o tenha, estes eram os nomes mais fortes.

OM - Existe alguma diferença entre os cantadores de antigamente e os atuais?

LC - Existe. Para começar antigamente os cantadores andavam a pé. Isso criava uma amizade mais forte. Existia uma fidelidade um para com o outro. Eu por exemplo, tirava uma temporada de quinze dias com Zé Pereira, se alguém me procurava naquele período para eu ir fazer qualquer outra cantoria eu dizia: "não, rapaz, eu estou numa temporada com Zé Pereira" e era assim. Cansei de ir de Aracati para Fortaleza a pé, cantando de praia em praia. Hoje não tem mais isso, a cantoria de antigamente o motivo era o que acontecia na hora, ali. Hoje não, o cantador pega um assunto e eu digo que ele "mecaniza" aquele assunto. Eu fui da época em que os cantadores botavam nos livros, hoje eles estão tirando dos livros.

OM - Era melhor naquela época ou agora?

LC - Era melhor naquela época. Teve uma ocasião em que eu comprei uma geladeira à vista com o dinheiro de uma só cantoria, hoje não tem mais isso. Vamos ser claros, me perdoem, mas hoje em dia não existe cantoria, existe show. Têm estes festivais, as pessoas vêm de fora e fazem aquela apresentação, aquilo não é cantoria, é show. Eu cheguei a cantar de sete horas da noite às seis da manhã. Eu peguei mais pesado.

OM - E o cordel, quando você se deparou com o cordel?

LC - Eu escrevi o meu primeiro cordel com oito anos, chamava-se "Zezinho e Aldenora". Na época eu adoeci, tive uma febre, e nunca fui de ficar parado. Então eu fiquei fazendo aquilo e eu tinha um tio que era cantador, quando ele chegou que eu mostrei ele disse: "é melhor do que eu só não sabe cantar". Era um cordelzinho até bonito para idade, mas se perdeu na memória.

OM - Dá para viver de poesia?

LC - Dá. Antônio Francisco está vivendo de poesia. E a gente vende aqui acolá uns cordeizinhos.

OM - Os nossos poetas são reconhecidos?

LC - Alguns. Mas nós temos muita gente no anonimato. Muita gente boa mesmo. O poder público poderia fazer um trabalho de amparo a esse povo. Eu tenho uns vinte a trinta cordéis publicados por aí mas acho que nenhum político, que é quem deve apoiar a gente, tomou conhecimento disso, nunca leu.

OM - "Me Enganei Com Minha Noiva" é um dos seus trabalhos mais conhecidos, foi gravado por Genildo Costa e Amazan. Como você vê a repercussão deste seu trabalho?

LC - Eu fico muito feliz. Certa vez eu liguei a televisão, coisa de meia-noite e tava lá um camarada recitando este poema... longe. Mas eu nunca fui beneficiado com este trabalho, a não ser a Somzoom Sat que me pagou duas vezes uma ninharia lá, depois parou. E ganho quando eu saio por aí vendendo o cordel.

OM - E o que houve que você não recebeu mais os direitos autorais?

LC - Não sei. Dizem lá que a gravadora fechou, faliu, quebrou, sei lá. Amazan não tem nada com isso, a gravadora é que parou de me pagar.

OM - Você escreveu um cordel chamado "O Meu Caso é um Descaso" onde você fala com um certo rancor de Mossoró, o que houve?

LC - Olhe, tudo que está escrito ali é verdade. Eu trabalhei muito em Mossoró, fiz muita coisa e Mossoró não me conhece. Aquela casa que era de Rosalba, quem emadeirou fui eu. Não sei se está do mesmo jeito. Era uma casa de primeiro andar. Ali eu sofri uma queda que passei dois meses doente. Meu pai tem muitos serviços prestados a Mossoró, foi quem botou aquela cruz da igreja São Vicente, sou combatente contra o bando de Lampião, mas ninguém sabe disso.

OM - Você atribui isso a quê, falta de memória do povo?

LC - Eu acho que a minha falta de sorte (risos).

OM - Você continua escrevendo?

LC - Escrevendo, não. Eu estou só com três por cento da minha visão. Mas eu guardo muita coisa na memória. Um dia desses eu estava por aqui, fazendo uma brincadeira para uns amigos com a viola, eu e Severino Inácio, era época de campanha eleitoral e parou um desses carros de som no maior volume. Então eu fiz um poema, onde eu peço a Tica, que é a dona do bar, para continuar a cantoria. Diz assim:

Tica me faça um favor
Se acaso tiver me ouvindo
E diga àqueles cachorros
Que, por favor, tô pedindo
Que vão latir noutro canto
Que aqui já tem dois latindo.

E sexta-feira eu tava cantando lá no Redenção e Severino Inácio me deu um mote dizendo que lá tinha mulher de ruma, então eu fiz este:

Eu também possui uma
Que tá morando bem ali
Eu tirei ela de um convento
Das freiras do Aracati
Deixou de ser freira lá
Pra ser rapariga aqui.


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Melhores correspondências para me enganei com minha noiva
OM - "Me Enganei Com Minha Noiva" é um dos seus trabalhos mais conhecidos, foi gravado por Genildo Costa e Amazan. Ir para o texto »

frutas e frutos do sertão

Ubaia, ameixa, quixaba
veludo,murta ,juá
eva-moura,gordião,
mari,coco,trapiá

jaca,condessa e oití
ingá pitomba e caju
lima cabaça e umbu
palmeira coté piqui
pinha brava e murici
quixabeira e guabiraba
fruita de abôbra e mangaba
graviola e jatobá
uva peroba araçá
ubaia ameixa quixaba

mucunã e cajarana
urucu jaramataia
e melancia da praia
mangaba pinha e banana
fava e cana caiana
cabacinha croatá
canapum matacujá
xiquexique e feijão brabo
mandacaru e quiabo
veludo murta e joá


inhame colé cará
vinagreira araticum
coco catolé jirimum
maxixe manga e croá
tomate manipuçá
mapirungo e algodão
carrapateira e pinhão
jurubreba e maniçoba
tambori romã caroba
erva-moura e gordião

laranja manguita limão
liro e jatobaí
moranga e buriti
coco da praia e melão
cana crioula e mamão
melancia e ananá
fruita de caju cajá
sabonete e macauba
ingati e carnauba
mari coco trapiá

d.p.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

versinhos d'amor

morena, minha morena
chega tua boca na minha,
teu corpo junto co o meu
como a faca na bainha.

morena, minha morena,
corpo de linha torcida,
queira Deus você não seja
perdição da minha vida.

morena,beiço de rosa,
claros dentes de marfim,
no meio do teu ressono
dá um suspiro pra mim!

mulata,minha mulata,
desconjuntura esse quadril
que a mulata,quando dança
tira fogo de fuzil.

quem o amor de uma morena
passa a vida sem gozar
vai-se embora desta vida
sem saber o que é amar...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Palavras de Sílvio Romero

Ninguém imagina como eu quero bem a isto, como acho isto bonito! Este sol que não se cansa de nos dar beleza e fartura e dengue 'as nossas mulheres, palavra que, 'as vezes, tenho vontade de adorar porque é verdadeiramente um deus! Qual literatura!Se vocês querem poesia, mas poesia de verdade, entrem no povo, metam-se por aí, por esses rincões, passem uma noite num rancho, 'a beira
do fogo, entre violeiros, ouvindo trovas de desafio. Chamem um cantador sertanejo, um desses caboclos destorcidos, de alpercatas e chapéu-de-couro, e peçam-lhe uma cantiga. Então, sim.
Poesia é povo. Poesia para mim é água em que se refresca a alma e esses versinhos que por aí
andam, podem ser água, mas de chafariz, para banhos mornos em bacia, com sabonete inglês e esponja. Eu, para mim, quero águas fartas__rio que corra ou mar que se estronde. Bacia é para gente mimosa e eu sou caboclo, filho da natureza, criado ao sol.




Palavras de Sílvio Romero Apud Coelho Neto, no discurso de recepção de Osório Duque Estrada na Academia Brasileira de Letras

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Nem todo pau dá esteio

Nem todo pássaro voa,
nem todo insento é besouro,
nem todo judeu é mouro
nem todo pau da canoa;
nem toda notícia é boa,
nem tudo que eu vejo eu creio,
nem todos zelam o alheio,
nem toda medida é reta
nem todo homem é poeta,
ne todo pau dá esteio.

Nem toda água é corrente,
nem todo adoçado é mel,
nem tudo que amarga é fel,
nem todo dia é sol quente;
nem todo cabra é valente,
nem toda roda tem veio,
nem todo matuto é feio,
nem todo mato é floresta,
nem todo bonito presta,
nem, todo pau dá esteio.

Nem todo preto é carvão,
nem todo azul é anil,
nem toda terra é Brasil,
nem toda gente é cristão;
nem todo índio é pagão,
nem toda agência é correio,
nem toda viage é passeio,
nem todos prezam bom nome,
nem toda fruta se come,
nem todo pau dá esteio.

Nem todo lente é sabido,
nem tudo que é branco é leite,
nem todo óleo é azeite
nem todo rogo é ouvido;
nem todo pleito é vencido,
nem todos vão ao sorteio,
nem todo sítio é recreio,
nem toda massa é de trigo,
nem todo amigo é amigo,
nem todo pau dá esteio.


Luís Dantas Quesado